Introdução editorial
Há livros que nascem da necessidade de explicar e outros que nascem da urgência de cuidar. Este é um deles. Aprender a viver com uma doença autoimune surge como um espaço de escuta, identificação e aprendizagem, pensado para quem vive com uma doença autoimune, para quem acompanha alguém nesse caminho e para todos os que sentem que a saúde é mais do que a ausência de sintomas.
Neste artigo, conversamos com a autora sobre o processo de escrita, a vivência do diagnóstico e as transformações pessoais que deram origem a este livro.
15 perguntas para conhecer melhor a autora
1- Em que momento sentiste que a escrita se tornava uma necessidade e não apenas uma vontade?
No início, logo quando esta jornada começou, escrever era para mim tão importante quanto ir a uma sessão de psicoterapia. As páginas do meu caderno de escrita simplesmente me escutavam, e sem dizer absolutamente nada, elas permitiam-me contar a minha história, revelando emoções, organizando e estruturando a minha forma de pensar. Hoje, facilmente digo que a escrita foi uma ferramenta utilizada para manter a minha saúde mental, quando todo o caos se instalava na minha vida.
2- Como foi transformar uma experiência tão íntima num livro público?
Posso dizer que, enquanto pessoa mais introspectiva que sou, este foi um dos aspetos que mais mexeu comigo e que me acompanha até aos dias de hoje, agora mais do que nunca, pois estou prestes a lançar o meu livro. No entanto, cedo percebi que a mensagem que estava a escrever era algo de precioso para quem estaria, tal como eu, a passar por uma fase de diagnóstico de uma doença autoimune. Este era o livro que eu gostaria de ter lido, logo ao início, para me ajudar a desenvolver as minhas próprias estratégias para lidar com este obstáculo. Acredito que criar um livro para ajudar o leitor a ressignificar a sua patologia é o meu maior contributo enquanto profissional de saúde com já quase 20 anos de experiência.
3- De que forma a tua formação como enfermeira influenciou a forma como olhas para a doença autoimune?
Muito sinceramente, penso que o facto de ser enfermeira não ajudou lá muito, uma vez que os óculos que tinha para ver já estariam calibrados com anos e anos de prática de cuidar de doentes nos hospitais, com a patologia que me tinha sido diagnosticada. Por isso, o trabalho que tive de fazer foi voltar a ver como se não tivesse esses óculos postos. E isso sim é que me ajudou. Tinha conhecimentos a mais e histórias intermináveis dos meus pacientes na minha cabeça que não me permitiam criar a minha própria história. Acho que não há pior doente do que um profissional de saúde, pois está familiarizado com tudo o que se poderá passar, desde tratamentos, reações adversas, complicações de procedimentos médicos e prognósticos avassaladores.
4- E o yoga, que papel teve no teu processo de adaptação e aceitação?
Nos primeiros meses após o diagnóstico, parecia que não havia yoga que me valesse. Não só estava a passar por uma doença no corpo, mas também ao nível da mente, e isso foi muito duro de assimilar enquanto professora de yoga. Tive muitos dias fora do meu tapete e muitas semanas sem conseguir meditar. No entanto, penso que o yoga não vai e vem, ele permanece sempre lá, acompanhando-nos nos momentos mais escuros da nossa vida. O yoga é muito mais que posturas, é uma forma de ser e de viver. Encaro o yoga como um voltar a casa, pois é lá que me sinto acolhida. É um mestre que nos ensina a caminhar mesmo com a doença.
5- O diagnóstico trouxe mais medo ou mais clareza à tua vida?
Encaro este processo como tendo duas partes. A primeira, realmente assustadora, em que achei que toda a minha vida estaria a ruir, e a segunda, o período de descoberta de mim própria. A clareza apenas vem com a dedicação de um tempo para cuidar de ti, para parar e para te priorizares acima de tudo o resto. A partir do momento em que me pus a mim própria como prioridade, consegui descobrir-me e ganhar clareza na minha forma de pensar.
6- Houve algum capítulo particularmente difícil de escrever? Porquê?
Sim. Foi o capítulo sobre o perdão. Há anos que não tenho qualquer contacto com o meu pai e perdoá-lo é algo extremamente difícil. O perdão é um processo que pode durar uma vida inteira. Mas vejo-o como um processo muitas vezes unilateral. Tive várias reticências em escrever esse capítulo, mas era um tema que tinha de abordar, pois perdoar é uma forma de desbloqueio energético do corpo, da mente e até da alma.
7- O que mudou de forma mais profunda na tua relação com o corpo?
Mudou a forma como vejo não só o corpo, como também a forma como vejo a vida. O corpo é um mensageiro e a doença é a sua mensagem. Passei a ver o corpo não apenas como organismo, mas como algo que transcende o físico e se interliga com o espiritual.
8 – Como defines hoje o conceito de responsabilidade sem culpa?
Somos responsáveis, mas isso não significa culpa. A culpa faz com que a pessoa doente veja o corpo como um inimigo. Ver o corpo como um aliado é um passo fundamental para a resiliência. Fazemos sempre o melhor com o conhecimento e os recursos que temos naquele momento. Sou responsável, sim, mas sem culpa, para poder cuidar melhor de mim.
9- Que ideia gostarias que os leitores abandonassem depois de ler este livro?
A ideia de que tudo está perdido e que não há mais nada a fazer para além de tomar a medicação.
10- Que aprendizagens pessoais sentes que ainda estão em construção?
Sinto-me imensamente grata à vida por me dar a oportunidade de reaprender a viver. O diagnóstico fez-me aprender muito sobre mim e sobre o propósito da minha alma, algo que continuo todos os dias a aprofundar.
11- Como foi o impacto emocional do diagnóstico no teu quotidiano familiar?
Teve um grande impacto na minha saúde mental. Passei a questionar-me mais e a procurar onde está o amor em cada coisa que faço. Hoje faço mais por amor e menos por obrigação.
12- Que importância teve a escrita como ferramenta terapêutica neste processo?
Escrever tornou-se tão importante como tomar o medicamento de manhã e à noite. Faz parte do meu processo profundo de cura, ajudando-me a trabalhar as minhas sombras.
13- Este livro é mais um ponto de chegada ou de partida?
É claramente um ponto de partida. Parto para o mundo à descoberta do amor.
14- A quem sentes que este livro pode ser mais transformador neste momento?
Em primeiro lugar para mim. Mas desejo profundamente que chegue às pessoas que mais necessitam dele. Enquanto alma cuidadora, este é um dos meus grandes contributos para a humanidade.
15- Qual é o teu nome de utilizador nas redes sociais, especialmente Instagram?
Yogalentejo