O Império que o Mundo Esqueceu — e que Carlos Calinas Correia veio recordar
560 anos. Quatro continentes. Dezoito reis. Um único propósito: o comércio.
Quando um motor de busca baseado em inteligência artificial ignora Portugal ao listar os maiores impérios da História, algo está errado. Não com Portugal — mas com a memória colectiva que permitiu que uma das mais duradouras e abrangentes experiências imperiais do mundo ocidental fosse apagada da consciência global.
É contra esse esquecimento que Carlos Calinas Correia escreve O Império Comercial Português, um ensaio histórico tão rigoroso quanto acessível, que traça a trajectória de 560 anos de presença portuguesa pelo mundo — de Arguim ao Brasil, de Goa ao Atlântico — com uma clareza que raramente se encontra na historiografia sobre o tema.
Correia não é apenas um historiador: é um engenheiro reformado que, após uma carreira na indústria, regressou à universidade para estudar aquilo que sempre o fascinou — a História dos Descobrimentos. Licenciado em História e mestre em História dos Descobrimentos e da Expansão pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é académico honorário da Academia Portuguesa da História e membro da Sociedade de Geografia de Lisboa. E escreve com a autoridade de quem sabe, mas a clareza de quem quer que todos compreendam.
“Da mesma forma que os homens não se medem aos palmos, as Nações não se medem por área ou população.”
O livro organiza-se cronologicamente, mas não é uma simples narrativa de eventos. É uma análise do que moveu o Império: o comércio. As especiarias da Índia, o ouro e os escravos de África, o açúcar do Brasil, a pimenta que financiou armadas e construiu palácios. Correia mostra como Portugal construiu, séculos antes do capitalismo moderno, uma rede comercial global que transformou a economia mundial.
Mas o livro é também um acto de justiça. Numa época em que a historiografia estrangeira continua a subestimar ou ignorar as fontes portuguesas, Correia reivindica a primazia dos testemunhos lusófonos e confronta directamente os erros e omissões de autores que, por comodidade ou desconhecimento da língua, distorcem a nossa história.
O resultado é uma obra de leitura urgente para qualquer português — e para qualquer pessoa que queira compreender como o mundo moderno foi moldado por uma nação que o mundo teima em esquecer.
O Império Comercial Português está disponível através da Editorial Autografía.
Conversa com Carlos Calinas Correia — 15 Perguntas ao Autor
P1. Como nasceu este livro? O que o levou, depois de uma longa carreira na engenharia, a debruçar-se sobre a História dos Descobrimentos?
Após a minha reforma tinha duas opções: ou continuar ligado à engenharia ou seguir o rumo de uma nova actividade que nunca tinha podido ter até então, mas que me agradava: a História. E foi este o rumo que escolhi, aprofundando os meus conhecimentos com uma licenciatura em História e depois um Mestrado sobre o período de ouro da nossa História, os Descobrimentos e Expansão.
P2. O livro começa por denunciar que um motor de busca baseado em IA ignorou Portugal ao listar os maiores impérios da História. Esta anedota é reveladora de um problema mais fundo?
Na leitura de algumas obras de autores estrangeiros que abordam este período, verifiquei quão pouco era referido à acção portuguesa no progresso civilizacional. Gago Coutinho cita-o em alguns dos seus trabalhos e é reconhecido por alguns autores estrangeiros. Isso mostra a ligeireza como alguns autores tratam a História, omitindo factos e situações fundamentais. Mais grave quando a ferramenta usada se encontra, cada vez mais, imbuída na actividade humana. No caso citado protestei e vi mais tarde que uma correcção foi feita, mas o mal estava realizado e não creio que a correcção o tenha eliminado.
P3. A tese central é que o Império Português foi essencialmente comercial desde a origem. Em que medida essa natureza comercial o distingue dos outros grandes impérios europeus da mesma época?
O Império Português foi pioneiro na sua natureza, pois baseou-se na navegação que desenvolvera, com a qual podia atingir longas distâncias mais rapidamente e ir buscar produtos em maior quantidade, embaratecendo o seu preço no consumidor, factor essencial no comércio. Os impérios que se seguiram tiveram primeiro de aprender a rota necessária.
P4. O livro cobre 560 anos de história. Qual foi o período mais difícil de analisar?
Durante a existência do Império, o período mais complicado foi o que se seguiu à Revolução Francesa, pelas invasões havidas e reacção inglesa. A personalidade do Rei não facilitou a administração do país e a ganância inglesa procurou tirar o maior partido da situação, com total desprezo pela soberania do aliado. Só o patriotismo de alguns, com sacrifício de vidas, valeu para reposição dessa soberania, sobrepondo-se à apatia real.
P5. A questão das fontes históricas é central na sua obra. O que perde a História universal por ignorar as fontes portuguesas?
A História vive da Verdade e esta só pode ser estabelecida quando se confrontam as diversas fontes, pois cada uma tem a sua verdade, mesmo quando honestas. Quando, por omissão, se escamoteia a Verdade, o resultado é uma narrativa não credível.
P6. As especiarias surgem no livro como motor económico do Império. Qual foi o seu impacto real na economia europeia?
Efectivamente as especiarias foram, durante algum tempo, factor económico do Império, com impacto assinalável na economia europeia. Como digo no livro, era um condimento importante na época, usado por todo o Mundo. O seu comércio movimentava avultado capital, desenvolvendo a actividade comercial nos seus diversos vectores, em que o financeiro teve especial importância, atingindo, em consequência, a economia europeia.
P7. O livro trata o comércio de escravos com rigor historiográfico. Como aborda um tema tão sensível sem anacronismo moral?
O comércio de escravos é um assunto altamente melindroso, a que só se querem associar males. Realmente, do ponto de vista social e moral, arrancar pessoas do seu meio ambiente e levá-los, de forma desumana, para terras desconhecidas, separar famílias e muito mais, não pode ser aceite hoje, embora o fosse naquele tempo. É certo que trouxe vantagens, acelerando a entrada na civilização daqueles povos que, quando terminou a escravatura, já não quiseram voltar à sua terra e seus hábitos. Também, sem escravos alguns produtos agrícolas não se teriam desenvolvido. É um assunto que tem e terá sempre aspectos morais a comentar e económicos e civilizacionais a esconder.
P8. O período Filipino é muitas vezes visto como um colapso do Império. A sua análise sugere uma leitura mais complexa?
No período filipino Portugal ficou envolvido na política castelhana e nas suas guerras, o que foi bastante prejudicial para a economia portuguesa, em especial pelos ataques ao seu Império, cuja defesa dependia dos interesses castelhanos que muitas vezes sacrificaram os interesses portugueses aos interesses próprios. Sendo Castela uma forte potência, Portugal viu muitas vezes países com interesses comuns sujeitarem-no aos interesses castelhanos, mesmo quando a Moral e a Justiça era o fim último desse país.
P9. Quando é que, na sua opinião, o Império Português deixou efectivamente de fazer sentido?
Portugal foi perdendo gradualmente as suas principais fontes de rendimento. Com a independência do Brasil, sofreu um muito importante rombo na sua economia. Sem uma base financeira suficientemente importante, a ideia de Império deixa de ter sentido, na minha opinião. Quando em 1975 concedeu a independência das suas províncias ultramarinas, as perdas financeiras foram menos importantes.
P10. Escreve que Portugal é considerado um país pequeno, mesmo pelos portugueses. A ignorância da nossa história imperial é um problema cultural, político ou ambos?
É um problema cultural. Se virmos em qualquer Atlas as dimensões dos diversos países, verificamos que há tantos países mais pequenos quanto maiores que Portugal. A pequenez é um conceito relativo. Lembremo-nos da garrafa meio cheia e meio vazia.
P11. A formação em engenharia influenciou a forma como aborda a história?
Acho que a minha formação em engenharia me deu uma forma de ver os assuntos mais objectiva, que se aplica aos factos históricos. Sinto que vejo alguns factos de forma diferente de outros autores. Embora mantendo a veracidade do facto, dou uma interpretação diferente ao que aconteceu. Mas tenho sempre presente que posso estar errado.
P12. Este é o seu quinto livro publicado. Como se relaciona com os anteriores?
Todos os meus livros são independentes. No primeiro, “A Arte de Navegar”, privilegiei o aspecto científico da navegação. No segundo, “A História dos Descobrimentos” salientei a biografia de cada um dos decisores, à época, cuja personalidade determinou o que decidiram. Na “Congregação do Oratório” quis salientar o método moderno e científico da educação ministrada por esta Congregação e o reconhecimento que D. João V, um rei muito empenhado na cultura, lhe manifestou. Finalmente com “Gago Coutinho e os Descobrimentos” quis apenas mostrar o contributo que este grande português deu à História, uma faceta dele pouco conhecida. O último livro é um trabalho mais amplo que os anteriores focando essencialmente o carácter de um Império movido, não pela conquista de território mas focado na navegação, com a qual pretendeu monopolizar a actividade comercial africana, asiática e brasileira.
P13. A quem se destina este livro?
Este, tal como os anteriores, é um livro de divulgação. Destina-se a leitores interessados na História Pátria, em conhecer mais, mas sem outras pretensões que não sejam culturais.
P14. Há aspectos do Império Comercial Português que não caberam neste volume?
Sem dúvida, este livro não esgota o assunto. Há muitos aspectos que “ficam na sombra”. Uma obra futura poderá ser “O Império Português no contexto dos Impérios Mundiais”.
P15. O que podem fazer os cidadãos comuns para preservar e divulgar a memória histórica de Portugal?
Não me parece poder caber ao cidadão comum o pugnar pelos feitos dos seus antepassados, pelo menos mais que nas simples conversas do dia a dia com família e amigos. Portugal é um país de emigrantes. Cabe ao Estado dotar aos filhos destes de escolas em que não se percam os valores da língua e da história. Mas também de Centros de Convívio, onde nas conversas do “dia a dia” se relembrem aqueles valores e se tenha acesso a livros que lembrem o nosso passado.