Origem e título
O título do seu livro é Homem de Terra. Na epígrafe do volume, o senhor diz: “Homem de Terra, é isso que sou!”. De que modo esta identidade molda o seu olhar sobre o mundo e a sua voz poética?
S.M.
Em todos os sentidos. Devo quase tudo à terra de onde venho e de que fui feito. Mesmo quando sonho que voo ‒ e sonho muitas vezes ‒ as asas com que flutuo sobre o mundo são de terra.
A “saudade” romena
O prefácio sugere que a saudade (em romeno, dor) entra em consonância profunda com a nossa. Para si, a ausência ganha corpo e presença através das palavras?
S.M.
Sim, é exatamente isso que acontece. Toda a ausência é um vazio que procuro preencher com palavras, sobretudo quando se trata de pessoas queridas e de tempos de que tenho saudades.
Tempo circular
Em poemas como “Ao contrário”, sente-se o desejo de nascer com o pensamento já voltado para o regresso. De onde vem esse chamamento para andar para trás, em direção aos começos, à origem do mundo?
S.M.
Da vontade de ter a mesma idade dos que vieram antes de mim. De viver todos os grandes acontecimentos do passado. Até os infelizes. E, não menos importante, de poder lançar-me de trenó pelo mesmo outeiro com os meus pais e os meus avós, em criança.
Infância eterna
Escreve que a realização de todos os sonhos é a tragédia que sela o fim da infância. Como conserva a força de se maravilhar perante a passagem implacável do tempo?
S.M.
Esforçando-me por continuar criança. Nem sempre é fácil. Sobretudo quando chega a noite e, apesar de ter o cabelo branco e de entender muita coisa, não percebo porque é que os meus pais já não voltam para casa.
Presença dos pais
No poema “O Pai”, a figura paterna caminha do outro lado da estrada, apoiando as solas dos pés nas minhas. Será a literatura um lugar de encontro vivo com aqueles que partiram?
S.M.
Escrevo precisamente por isso, para poder encontrar-me com os que já não estão. Quase todos os meus livros tentam devolver-lhes a vida. Com o risco de desagradar a Deus. Talvez até ao Juízo Final Lhe passe a irritação e Ele me perdoe.
A morte como extensão da paisagem
Na sua poesia, a morte não congela; ilumina, como uma “arma branca de neve”. Como chegou a essa visão tão plástica e, em segredo, consoladora do fim?
S.M.
Venho de um mundo em que os mortos se sentam à mesa com os vivos. Os que seguem o último caminho são frequentemente lembrados. Existem dias especiais para eles no calendário ortodoxo. Mas, acima de tudo, existe a crença de que, para lá do limiar da vida temporária na terra, começa outra vida, eterna e melhor do que a anterior.
Essa é também a minha crença. A morte também tem a sua justiça, quando nos mete o medo nos ossos. Habituámo-nos demasiado a apresentá-la nas cores mais sombrias.
A aldeia e o cosmos
A aldeia surge como uma “parente distante” do cosmos. Como é que o espaço rural alimenta a sua busca de sentidos metafísicos?
S.M.
Cresci numa casa com três divisões, sendo a maior delas o pátio, cujo teto era o céu, que contemplávamos noite após noite, com os olhos fixos nele. Era, por assim dizer, o cosmos inteiro ao alcance da minha mente de criança.
Fazia-lhe todo o tipo de perguntas. Ainda lhas faço, e às vezes até recebo respostas. Em suma, o cosmos, esse parente distante da minha aldeia, desce até à mente da minha criança velha.
O paradoxo da memória
A memória torna-se um “viajante exausto, sentado à beira da estrada”. Quando a recordação o olha, porque sente que já não o reconhece?
S.M.
Porque até as recordações perdem às vezes a memória. Para darem lugar a outras recordações, que um dia também hão de esquecer-nos.
Escrever com alma
Denuncia a “escrita fria, sem alma”. O que dá vida a um poema, para que o leitor o possa habitar como uma casa?
S.M.
A emoção. E a emoção significa calor. Como habitar uma casa completamente sem calor? Não em sentido térmico, entendamo-nos.
Um poema em que se fala de gelo pode ser uma das casas mais quentes construídas com palavras. Com a condição de lhe dar alma, colocando nela uma parte de si.
Geometria da morte
Em “O Retângulo”, o professor de geometria desenha a morte sem o saber. Porque é que o círculo vazio do cemitério se torna, para si, uma forma de felicidade?
S.M.
Como não haveria de ser feliz quem trouxesse de volta à vida todos os que estão no cemitério, ao mundo de onde partiram?
Se me pedissem que dissesse qual é a forma geométrica da felicidade, eu diria, sem pensar muito: um cemitério redondo ou retangular esvaziado da morte.
A figura de Deus
Nos seus versos, Deus ora surge como uma criança brincalhona, ora como uma presença adormecida no sótão. Como se dispõe o sagrado na sua vida quotidiana?
S.M.
Como se dispõe a luz do sol sobre a terra. Ou a chuva. Sinto, todos os dias, como se chovesse sobre o mundo com pequenas gotas de Deus.
Sem essas gotas, sentiria que a alma começava a secar. E começaria a ter medo de viver.
Guerra e inocência
Em “Gente feliz”, a ironia morde a figura dos generais e dos soldados. Como é que a história do lugar moldou a sua sensibilidade perante o sofrimento coletivo?
S.M.
Faço parte de uma geração que não conheceu diretamente a guerra. Mas lembro-me dela com a ajuda dos fragmentos de memória dos meus avós e bisavós, que passaram para a minha memória.
E sofro. Dói-me a morte de cada soldado na frente. Em todas as frentes. Mas sobretudo nos de hoje, aqui perto de nós. Sofro pela viuvez de cada mulher, sinto-me órfão com cada criança que fica sem pai.
E apetece-me morrer de vergonha por ser um dos cidadãos deste mundo que não aprendeu nada com as lições dolorosas do passado.
O “Não Nascido”
No poema de abertura, confessa que talvez nem sequer tenha nascido. Será esse afastamento da vida a verdadeira origem das realidades alternativas que cria?
S.M.
O não-nascer não significa, na minha imaginação, afastamento da vida. Mas sim uma vida que corre de outro modo. Livre da constrição do tempo.
No mundo anterior ao nascimento, não há a preocupação com a morte. Não há, por assim dizer, preocupação nenhuma.
Simbiose com as ilustrações
Como é que os seus versos se encontram com o traço de Mircia Dumitrescu, cujas figuras parecem brotar da própria matéria da terra?